terça-feira, 23 de novembro de 2010

Felicidade sem cobrança




O que eu mais custo a aceitar é a felicidade. Sua irmã, a infelicidade, eu acomodo com muito gosto, tão logo ela chega. Eu me apego à ela com uma facilidade doce e sem perguntas. Logo o abraço é completo e apertado, sufocante até.


Quando a felicidade chega, porém, eu abro só uma fresta da porta, com desconfiança imensa.
— De onde você vem? E veio por quê? E quem foi que te mandou? E quanto tempo pretende ficar?


A felicidade, geralmente pequena, mas significativa, treme suas penas todas ali na entrada. Ela responde entrecortada e já meio vacilante que se a hora não for boa, ela vem em outra, mais propícia.


A contragosto deixo a felicidade entrar, mas fico sempre à espreita, mantendo sua pequenez no canto do olho. Eu sondo seus motivos, eu suponho seus porquês, até que ela toda suma no ar.


É porque eu ainda não entendi que também a felicidade vem sem cobranças. É porque, no fundo, estou acostumado a pagar um preço pelo que é bom. E uma felicidade, assim, sem acerto prévio de contas, me causa estranheza de morte. É porque eu preciso aprender a aceitar mais. E é também porque eu preciso entender que quando a felicidade vem, sem motivos, basta deixá-la pousar no peito e não perguntar jamais os porquês.


Mesmo que ela arrulhe demais, mesmo que ela me arranhe demais, mesmo que ela seja misteriosa demais. Por Deus, é só uma felicidade, deixo que essa fique, então.

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