Marcamos de nos encontrar, um programinha casual. Fomos até a sua casa, ao lado da cama, um colar. Meu não é. De alguma garota da noite anterior. Ou da semana passada. Ou do ano passado. Ele é cheio de garotas e pela primeira vez na vida sorri ao pensar isso. Tá certo ele. Bonitão, engraçado e safado. Que mulher não se apaixona por ele? Eu. Eu não me apaixono mais por ele. O que significa que agora podemos nos relacionar. O que significa que agora, posso ficar tranquilamente ao lado dele sem odiar meu cabelo, minha bunda e minha loucura. E posso vê-lo literalmente duas vezes ao ano, sem achar que duas vezes na semana são duas vezes ao ano. E posso vê-lo ir embora, sem me desmanchar ou querer abraçar as fotografias e chorar. Consigo até dar tchauzinho do portão. Tchau, vou comer um pedaço de torta e assoviar. Tchau, querido mais um ser humano do planeta.
To organizando minha vida. Preciso de horas complementares. Ele briga comigo: sua vida está ótima, que perda de tempo se preocupar com o que estará fazendo daqui a 2 anos. Eu apenas achei graça. Se eu o amasse, abandonaria todos os meus planos, sentaria no chão e começaria a chorar. Por favor! Goste de mim! Por favor! Como assim? Eu ia ficar com isso na cabeça um mês. Ia aumentar a terapia em três vezes por semana. Ia querer morrer. Mas apenas ri e continuei na minha missão de cuidar dos meus planos. Depois reclamou que eu só uso jeans. Jeans é um tecido muito desconfortável. Olhei sínica e disse: na próxima vez eu já venho pelada. E ele me olhando com preguiça. Ai menina, como tu anda mau humorada. E eu assumi o meu mau humor e o larguei falando sozinho. Se eu estivesse apaixonada, ia bolar milhares de motivos mirabolantes para lhe explicar meus motivos em estar mau humorada, ou por ter colocado jeans.Ia entrar na lenga lenga insuportável de pedir desculpas por ser como sou, como se isso tivesse explicação ou desculpas ou salvação. Teria morrido, ou melhor, o matado, porque não suporto olhares de preguiça e reprovação. Teria perguntando, ainda que inconscientemente, o que fazer, naquele fim de noite, para ser absolutamente perfeita. Me odiando e odiando ele por me sentir assim, uma imbecil. Mas não, apenas voltei a ver o filme. Ele me achar mau humorada e o porteiro da universidade me achar sexy tem o mesmo poder sobre mim, nenhum. Outro dia saímos com alguns amigos dele, um barzinho qualquer. E ele me olhando de longe. Ah, se ela tivesse agido assim. Tão normal, tão simpática, tão leve, tão boa companhia. Ao invés daqueles surtos de ciúme, daquelas cobranças por mais intensidade, daquela necessidade em acordar de madrugada com medo da vida, daquela arrogância pra cima de mim e dos meus amigos que não sabiam conversar de livros, filmes, músicas e dor na alma. Se ela tivesse confiado assim no taco dela. E sorrido mais. Se ela tivesse me amado sem amar. Ou como amam as pessoas que conseguem se relacionar. E eu lá, sendo adorada por ele, justamente porque não o adoro mais. Ô vidinha filha da puta. No final do encontro, a frase que eu temia. “Vai sair hoje?”. Eu sabia. Toda mulher feliz e equilibrada deixa saudades. Mas eu não queria. Eu só queria amar alguém, com toda a tristeza e desequilíbrio que vem junto com isso, e continuar deixando saudades. Quando dizem que namoro ou casamento ou qualquer relacionamento mais sério não pode dar certo, eu discordo. O que definitivamente não dá certo, ao menos para mim, é se apaixonar. Agora, que graça tem fazer qualquer coisa da vida sem estar apaixonada?
Ô vidinha filha da puta.
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